Terminei a ligação. Tive de o fazer.
Cada segundo e cada milha levavam-me mais para o mundo dele, afastando-me cada vez mais da vida que desejava. Presa. Sufocada. As correntes apertavam-se.
Então o avião abanou.
As luzes piscaram. O pânico espalhou-se como um vírus pela cabine. Olhei à volta, vendo o medo nos olhos de cada passageiro. Não era a única sufocada.
A voz do piloto falhou pelo sistema de som, mal audível acima do caos crescente. "Passageiros, estamos a enfrentar uma falha elétrica. Por favor, mantenham a calma enquanto a nossa equipa técnica resolve o problema."
Calma? O avião sacudiu violentamente. O meu coração deu um salto. Virei-me para a janela, desesperada por encontrar algo familiar, mas tudo o que conseguia ver eram nuvens densas a rodopiar como uma tempestade que não me deixaria partir.
A turbulência aumentou. O tremor e o ruído pareciam demasiado reais — demasiado próximos. Depois, as luzes apagaram-se. Tudo ficou escuro.
Arfei. Será que o Alexei fez isto? Será que me amaldiçoou?
A cabine irrompeu em caos. Gritos. Vozes desesperadas. Pânico. Não conseguia respirar. O ar parecia demasiado escasso, demasiado apertado. O meu telemóvel escapou-me da mão e caiu no chão, como se estivesse a gozar com a minha perda de controlo.
Fechei os olhos, tentando bloquear o caos. Mas tudo o que conseguia ouvir era a sua voz, ainda ecoando nos meus ouvidos, "Se não apareceres na minha casa à hora marcada, despede-te dos teus malditos familiares!"
O terror era avassalador, sufocante.
Voltei a pensar nas palavras que me tinha atirado. A sua promessa. A ameaça. As correntes invisíveis puxavam-me para trás, arrastando-me mais fundo para o mundo dele, o mundo de que não conseguia escapar — o mundo em que nunca quis estar.
E naquele momento, enquanto o avião voltava a tremer, percebi que não estava apenas a fugir dele. Estava a fugir do meu medo.
Mas quanto mais corria, mais apertadas as correntes ficavam.
A voz do piloto soou de novo, abafada, distante, perdida no meio do pânico que agora consumia todos.
O avião voltou a sacudir-se, a violência dele a atingir-me. Aquilo não era apenas turbulência. Era algo mais. Algo que não podia controlar.
Olhei pela janela mais uma vez, com a mente a mil. Nuvens. Nada além de nuvens intermináveis.
A escuridão engoliu-nos por completo.





